Você quer saber como é? Então eu vou te contar...
Você percebe que está acima do peso. As blusas não ficam bem, as calças ficam apertadas, seus culotes saltam e sua barriga grita. Você decide fazer uma dieta. Começa aumentando saladas e frutas e diminuindo massas, doces e frituras. Mas um dia você sai da dieta, e no outro tenta compensar. Sua dieta fica cada vez mais rígida, em compensação você sai dela muitas vezes. De repente você percebe que está tentando se limitar a menos de um quarto do consumo calórico para uma pessoa normal. E percebe também, que quando perde o controle, você ingere calorias suficientes para 4 dias.
Com o tempo, você vai sentir menos fome, ou nem vai senti-la, em compensação, quando você começar a comer, nunca vai se sentir saciada. Você vai passar talvez um dia sem comer... Ou dois, três... E de repente, você vai se obrigar a comer. Não vai ser por fome, nem por vontade. Você não vai querer comer aquela comida nogenta, mas não vai conseguir se controlar. Vai se sentir obrigada. Você vai comer. Um prato de comida, dois três, pedaços de bolo, biscoitos, salgadinhos, refrigerante, batatas-fritas, chocolates... Vai comer tudo como se nunca tivesse comido na sua vida, entretanto, nada disso terá gosto. A comida nunca mais terá o mesmo gosto de antes. Ela terá gosto de obrigação e culpa ao mesmo tempo. Uma mistura amarga, com certeza. Você vai tentar parar, mas não vai conseguir, até que seu estômago começe a doer. Vai doer, vai doer tanto que você mal vai poder se mexer.
Desesperada, você irá correr até a privada, enfiar seus dedos na goela e forçar até que saia tudo. Quer dizer, primeiro serão os dedos, depois você vai precisar de algo maior... Uma cantea talvez, uma escova de dentes, e logo estará usando o cabo de uma escova de cabelo... Você vai enfiar lá dentro e masturbar sua garganta até se sentir aliviada. Vai doer, mas o alívio será maior. Vai ser nogento, mas você vai gostar, vai se entregar a essa sensação.
Depois, você vai voltar ao seu jejum. Sua barriga vai roncar, você vai sentir o ácido no seu estômago, sua cabeça vai doer e quando você se levantar as coisas ao seu redor irão girar, girar... Mas a dor é boa. E quanto mais fraca você está, mais forte você se sente. Então você continua. Até o limite. Ou até ter alguma decepção e acabar comendo pra preencher o vazio dentro do seu coração. Mas a comida não vai satisfazer sua carência, não vai acabar com sua culpa, não vai afastar seus medos. Ela não é a solução dos seus problemas. Mas você sabe que enquanto come não pensa em outras coisas, então você come, e come mais, até não aguentar, de novo... E de novo você vai vômitar, e vai se sentir aliviada... Você vai levantar tonta, e sua garganta vai doer. Você vai ver sangue saindo junto com a comida, mas talvez isso não faça diferença. Você não é mais dona da sua vida. "Ela" comeu sua alma.
Com o tempo você não vai mais saber se vômita por comer, ou se come para vômitar. Você não vai saber se deixa de comer por ser gorda, ou se você realmente está tentando se matar aos poucos. No início, tudo parecia tão maravilhoso, você sentia que estava no controle. Mas estava enganada. Nunca há como saber se outra pessoa está no controle, ou se a doença já a dominou por completo. Somente a própria pessoa pode saber, e talvez ela não saiba, porque já não é mais completamente dona de seus próprios pensamentos...

5 Comments:
caramba esse texto é assustadormente verdadeiro
eu fiquei até arrepiada
Verdadeiro, perfeito e assustador. Sem mais palavras, tudo o que você escreveu é suficiente.
isso é uma das "cartas da ana?"
parece bastante!
primeira vez passando por aqui!
boa sorte!
=*
É, eu comecei assim.... primeiro vomitava por comer, depois passei a comer pra vomitar.
Pior é que pra mim parar de vomitar por comer e passar a comer para vomitar é um passo.
Até na internação eu tava assim.... "já que eu vou vomitar mesmo, porque não comer uns 3 pães logo de uma vez?!" e foi assim que eu cheguei aos 65 kgs :/
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Quanto ao açoriano, eu tô achando ele muito espertinho pro meu gosto. O cara já praticamente se mudou aqui pra casa.
Me levou para apresentar pros amigos dele, é mas depois fui descorbir que esses amigos dele frequentam as festas da universidade aqui, e me perguntei se era pra me apresentar ou pra me marcar...
E pra fechar hj com chave de ouro ele disse que eu nunca conseguiria me livrar dele :/
não consegui não começar a ler este texto mas parei logo quando começaram os episódios bulimicos! eu não sei o que é isso e nem quero saber!
é tão verdade a parte de não ter o mesmo sabor! eu quando começo uma compulsão é por algo que eu acho muito delicioso mas mal ponho na boca eu não sinto sabor nenhum! é tao estranho!
por exemplo, se for um bolo que eu antes amava, eu vou começar a comer porque antes gostava muito mas no momento não o consigo saborear mas... porra também não consigo parar de comer. lá está: eu não como por prazer, fome ou vontade de comer .. eu como simplesmente porque sofro com um transtorno alimentar
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